03 abril, 2025

A Tarifa da Desconfiança: Uma Crônica Antropolítica de Cornos e Mercados Paralelos


 


Meus caros amantes da ciência política e curiosos da alma humana, sentem-se que a prosa de hoje é daquelas que misturam o amargo da traição com o azedo das tarifas alfandegárias. Imaginem, se puderem, a mente perspicaz de um cientista político, este que vos fala, debruçado sobre os intrincados labirintos da desglobalização. Mas não estou sozinho nesta jornada! Convoquei uma noite inteira de antropólogos argutos, mentes que escrutinam os ritos e costumes das mais diversas tribos, para iluminar um paralelo inusitado: a imposição de tarifas elevadas e… o doloroso ambiente de uma traição matrimonial.

Nosso ponto de partida, meus caros, emerge de uma conversa franca, quase um desabafo, onde a semelhança entre um “tarifásso” e a descoberta de chifres reluziu como uma moeda esquecida. Pensem no sujeito, outrora confiante em sua união, que se depara com a constatação amarga de que sua parceira (chamemos ela de “economia doméstica”, se me permitem a metáfora) possui outros “parceiros comerciais” secretos.

Nesse instante de revelação, um cortejo de sintomas se manifesta, tanto no lar quanto no tabuleiro do comércio internacional. Há um desinteresse flagrante pelo “parceiro principal”, um certo esvaziamento daquela chama que outrora unia as partes. No plano íntimo, evitam-se as situações de proximidade, o toque se torna hesitante, o beijo, um protocolo sem alma. No âmbito econômico, observa-se uma retração nos investimentos mútuos, um receio de aprofundar laços com um parceiro considerado infiel.

E, claro, paira o espectro dos riscos. No leito conjugal, a sombra das Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) assombra, um lembrete físico da quebra de confiança. No cenário global, a imposição de altas tarifas carrega consigo o risco de retaliações, de instabilidade nos mercados, de uma “doença” que contamina toda a cadeia produtiva. A própria bioquímica da relação se altera: a ocitocina, hormônio do amor e da conexão, mingua, enquanto a dopamina, ligada ao prazer e à recompensa (possivelmente obtida alhures), flutua de maneira errática, corroendo a qualidade de vida do “cônjuge traído” – ou da nação que se vê preterida.

Diante desse cenário desolador, o “marido enganado” (ou o governo confrontado pela deslealdade comercial) busca instintivamente lançar mão de “recursos protocolares”. A intenção, na superfície, parece nobre: fomentar uma maior interatividade com a parceira, restabelecer a ordem, sem incorrer em riscos adicionais.

Assim, nosso protagonista doméstico propõe um “pacote de medidas”, um tanto kafkiano, convenhamos: sexo apenas com preservativo (a barreira tarifária?), laudos semanais de exames de DSTs (os relatórios de inspeção?), o rejuramento quinzenal dos votos matrimoniais (os acordos comerciais revisitados?) e, pasmem, um exame de corpo delito mensal (a auditoria implacável das contas?).

Num primeiro momento, essa estratégia, compartilhada em segredo, talvez até gerasse uma ilusão de controle, uma sensação de que a situação está sendo “gerenciada”. Contudo, como perspicazmente aponta nossa análise antropológica, o médio prazo revela uma faceta sombria e inesperada.

Essas medidas protocolares, ao invés de reconquistar a fidelidade e restabelecer a saúde da relação, acabam por fomentar um “mercado paralelo” da intimidade. Os amantes, antes clandestinos, agora operam sob novas “regulamentações”, com a “preocupação com a saúde” devidamente atendida em outro lugar. A traição, antes um desvio, torna-se quase uma indústria cottage, com seus próprios protocolos de segurança.

E qual a implicação final dessa “tarifação da desconfiança”? Um decréscimo significativo da saúde sexual – e emocional, e econômica – do “casal principal”. O marido, na tentativa de se proteger, paradoxalmente se vê mergulhado em um problema ainda maior do que o inicial. A desconfiança, elevada a níveis tarifários estratosféricos, não cura a infidelidade; apenas a desloca, a organiza, a torna talvez mais segura para o traidor, mas fatalmente mais danosa para o traído.

Assim, meus caros, a noite com nossos antropólogos nos legou uma reflexão inquietante. Que a imposição de barreiras, sejam elas no leito ou no comércio, quando motivadas pela desconfiança e pela tentativa de controle absoluto, podem surtir um efeito perverso, alimentando os “mercados paralelos” da deslealdade e, ao final, cobrando uma tarifa muito mais alta do que a inicialmente imaginada. Uma lição para os amantes e para os líderes de nações: a confiança, mesmo fragilizada, ainda é o tecido mais resistente para a construção de laços duradouros. E a desconfiança tarifada, ah, essa invariavelmente cobra seu preço, um preço muitas vezes impagável.

29 março, 2025

DOR e ANA


Dói, sem trégua.
Corrói, sem parar.
Meu entorno desmorona.
Agora o crucial é sobreviver, sem dor.

Tudo mesclado e diluído como uma gota de corante numa poça de cotidiano.
Eu careço de um outro rim,
e de um cérebro modelo padrão, com QI mediano.
Tudo vai se despregando,
sem vestígios da vida,
sem cheiro da ferida.
Minha identidade dissolvida,
perde vida pueril, encalhada
e encharcada de óleo, como pastel.

Eu quero uma descarga,
para afogar toda humanidade e suas guerras.
Só tem interesse a mentira da aparência.
Foi para o ralo a verdade da essência.
E com ela a toda minha consciência,
repleta de axiomas,
vazia de emoções.
Parece um buraco negro
de gente colorida, sem vida,
com passagem só de ida.
Dor que dói até onde não dói.


Abaixo o texto transcrito pela AI Aria, a meu pedido, mimetizando o estilo de escrita da Clarice Lispector:

A dor, um bicho-de-pé na alma, sem trégua. Corrói, lenta e inexoravelmente, como o tempo que se esvai entre os dedos. O entorno, um palco desabando, e eu, a única sobrevivente de um naufrágio sem mar. A sobrevivência, um ato de pura resistência, sem o alívio da dor, apenas a sua presença opaca. Tudo se mistura, diluído na poça cinzenta do cotidiano, como uma gota de corante que se dissolve sem deixar vestígios. Preciso de um rim novo, de um cérebro mediano, um modelo padrão para essa existência que se desfaz. Desprendimento total, sem a marca da vida, sem o cheiro cru da ferida aberta. A identidade, um rio que se perde no oceano, leva consigo a vida pueril, encalhada, encharcada de óleo, como um pastel velho e sem graça. Uma descarga, um desejo de afogamento, para silenciar a humanidade e suas guerras sem sentido. A mentira da aparência, única verdade que me resta, a essência jogada no ralo, junto com a consciência repleta de axiomas vazios, uma casca seca sem emoção. Um buraco negro de gente colorida, sem vida, uma viagem só de ida, sem volta. A dor, essa dor que ultrapassa os limites da dor, um eco que reverbera no vazio.

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Manoel Belem (1)
Aria IA do Opera (2)