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09 agosto, 2026

HA, RÁ, RA...

horinhas de descuido...
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Quando em momentos fugazes de alegria não damos conta do passar do tempo, 
estamos plenamente engajados no estocástico processo divino que nos faz existir—experimentando aquela " Felicidade que se acha é em horinhas de descuido", 
como diz Guimarães Rosa (Grande Sertões: Veredas). 

Que a gente se permita muitos outros cafés com água e muita conversa...

20 julho, 2026

KISS


E tudo não passou de um beijo, a kiss...
...de mentos, sem açucar, sabor menta.
Me lembrou pimenta.
Mas a gente tenta.
E se arrebenta...

12 junho, 2026

Dia dos eNamorados



 

 

 

 

 

 

 

 

 

Feliz dia daqueles que se inventam no outro, dividindo não o tempo, mas o espanto de existir lado a lado. 

Feliz é quem sorri pelo susto de ter te encontrado — uma calmaria que também é abismo. Porque quem quer, quer apenas o ser.

O jantar? O restaurante é um pretexto burguês, uma moldura inútil. 

Quem quer sair com você não busca a geografia das mesas postas, mas a geografia do teu rosto. Onde? Não importa onde. O lugar é um detalhe que se apaga diante da urgência da presença.

Conversar com você é despir-se de protocolos. É tocar o avesso das palavras.

Quem quer de verdade quer a tua verdade: aquela que surge no atrito da discórdia, no desassossego de não pensar igual, mas sentir junto. 

E acordar com você... ah, acordar com você é o milagre de partilhar o amanhecer, mesmo que a noite tenha sido um longo e lúcido insone. 

Porque o amor não dorme. O amor vigia.

 

16 fevereiro, 2026

Protagonista x Cenário




Mire e veja: o vivente, no descuido do destino, às vezes se desgoverna. A gente perde o estribo do próprio querer e o comando da alma se esparrama, feito rio que esquece o leito.

Nesse vago, a gente deixa de ser o centro do sertão de si mesmo para virar apenas a beira da estrada, um retratado na parede ou a sombra mansa que serve de fundo para a travessia de outrem. Pois, como se sabe, viver é negócio muito perigoso, e o mais difícil não é o galope, mas sim o não se deixar virar paisagem no olho alheio.

"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

03 fevereiro, 2026

Ausência e Presença (variações)

 





Por vezes tua ausência se faz presente em momentos de alegria, 
com lembranças do teu sorriso perplexo e teu olhar inebriado. 

Ainda assim nada aplaca o querer sentir teu calor ao meu redor. 
Adormeço lentamente...

 

 

G.R.


Às vezes, é no meio da alegria que tua falta se chega, sorrateira, feito vento no entardecer. Vem tua lembrança — o riso meio espantado, o olhar que se perdia no longe. E então o peito se acende num querer manso, danado, de sentir teu calor rodeando a solidão que mora em mim. E o sono vai vindo, pousando devagar, como quem se entrega à saudade. 

Por vezes, no meio da alegria do povo, tua falta vem e se assenta ao meu lado, quieta.
Lembro teu sorriso meio espantado, teu olhar meio bêbado de encanto, e o peito se acende num querer te sentir rondando meu corpo.
Até que o sono, mansinho, me pega pela mão e me adormece dentro da saudade. 

  • Microconto

Por essas horas de festa, quando o povo ri alto e o mundo parece ter se esquecido de qualquer dor, é que ela mais sentia: a falta dele dava sombra até no sol do meio-dia.
O riso dos outros batia nela feito vento em porta mal fechada, rangendo lembranças: o sorriso dele, meio perplexo, como quem não sabe se entra ou se vai embora; aquele olhar embriagado de encanto, que via mais longe do que a vista alcança.

A alegria, então, virava bicho arredio, dessas coisas que a gente tenta segurar na mão e escorregam por entre os dedos.
Porque por dentro o que havia mesmo era o querer — um querer danado, miúdo e imenso, de sentir o calor do corpo dele fazendo roda em torno da sua solidão.
Era como se o mundo inteiro fosse sertão de noite sem lua, e só o abraço dele pudesse acender estrela.

Ela se deitava cedo, mas o sono vinha tarde.
Ficava escutando o barulho do próprio peito, aquele trote de cavalo disparado na vaziez do quarto.
No meio da madrugada, a lembrança dele chegava mansa, se deitando ao lado, ajeitando lugar no travesseiro, sopro quente no cangote da saudade.
Então, pouco a pouco, o corpo cansado se rendia, e o adormecer era quase um milagre: como quem, enfim, encontra sombra debaixo de árvore antiga, depois de muito caminhar na aridez.

 

C.L.

Tua ausência existe. Presente em cada instante em que me descubro feliz — e, de repente, falta algo. O teu sorriso interrompe o tempo. O olhar, lembrado, me percorre como se ainda fosse agora. Eu tento esquecer, mas há o corpo querendo o teu calor — um gesto que nunca termina. Adormeço dentro da falta, suave e inteira.

Quando sou feliz, é aí que mais percebo tua ausência: ela entra com o teu sorriso lembrado, com o teu olhar ainda em mim.
Nada toca esse centro vazio que insiste em querer o teu calor ao redor do meu corpo.
Adormeço como quem abraça o que falta — e, estranhamente, descanso nisso.

  • Microconto

Às vezes a alegria dói.
Ela percebeu isso num instante qualquer — gente conversando, copos tilintando, uma música que não pedia nada além de um leve balanço do corpo.
De repente, no meio do riso, algo se abriu dentro dela: um espaço vazio, enorme, silencioso.
Era a ausência dele. Presente.

Lembrou-se do sorriso dele: não era só um sorriso, era uma pergunta.
Um espanto suave, como se ele nunca acreditasse completamente na própria felicidade.
E o olhar — aquele olhar — que parecia beber o mundo e ficar tonto.
Com essa lembrança, ela sentiu que o real se deslocava um pouco para o lado, como um quadro torto na parede.
Nada mais estava exatamente no lugar.

Ela queria o calor dele.
Não era metafórico: era a pele, a temperatura exata, o contorno do corpo ocupando o ar ao redor.
O desejo não era grandioso, era insistente, repetitivo, quase doméstico: a vontade de um abraço que envolve e fecha o zíper do mundo.
Sabia que não teria. Ainda assim, o corpo pedia, como quem pede água sem saber a palavra “sede”.

Quando voltou para casa, havia um silêncio espesso na sala.
Sentou-se na cama, sem acender a luz, como se a escuridão fosse uma forma de sinceridade.
Deitou-se devagar, tentando não fazer barulho, como se pudesse acordar a falta que dormia ao lado.
Pensou nele, mas não era exatamente pensamento: era uma presença imaginária percorrendo o contorno do seu corpo.
O sono não chegava; chegava apenas um cansaço fundo, uma trégua pequena.

Adormeceu por fim — não dentro da paz, mas dentro da ausência dele.
E descobriu que também se pode descansar aí: no lugar em que o que falta acaba sendo, estranhamente, tudo o que se tem.