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03 fevereiro, 2026

Ausência e Presença (variações)

 





Por vezes tua ausência se faz presente em momentos de alegria, 
com lembranças do teu sorriso perplexo e teu olhar inebriado. 

Ainda assim nada aplaca o querer sentir teu calor ao meu redor. 
Adormeço lentamente...

 

 

G.R.


Às vezes, é no meio da alegria que tua falta se chega, sorrateira, feito vento no entardecer. Vem tua lembrança — o riso meio espantado, o olhar que se perdia no longe. E então o peito se acende num querer manso, danado, de sentir teu calor rodeando a solidão que mora em mim. E o sono vai vindo, pousando devagar, como quem se entrega à saudade. 

Por vezes, no meio da alegria do povo, tua falta vem e se assenta ao meu lado, quieta.
Lembro teu sorriso meio espantado, teu olhar meio bêbado de encanto, e o peito se acende num querer te sentir rondando meu corpo.
Até que o sono, mansinho, me pega pela mão e me adormece dentro da saudade. 

  • Microconto

Por essas horas de festa, quando o povo ri alto e o mundo parece ter se esquecido de qualquer dor, é que ela mais sentia: a falta dele dava sombra até no sol do meio-dia.
O riso dos outros batia nela feito vento em porta mal fechada, rangendo lembranças: o sorriso dele, meio perplexo, como quem não sabe se entra ou se vai embora; aquele olhar embriagado de encanto, que via mais longe do que a vista alcança.

A alegria, então, virava bicho arredio, dessas coisas que a gente tenta segurar na mão e escorregam por entre os dedos.
Porque por dentro o que havia mesmo era o querer — um querer danado, miúdo e imenso, de sentir o calor do corpo dele fazendo roda em torno da sua solidão.
Era como se o mundo inteiro fosse sertão de noite sem lua, e só o abraço dele pudesse acender estrela.

Ela se deitava cedo, mas o sono vinha tarde.
Ficava escutando o barulho do próprio peito, aquele trote de cavalo disparado na vaziez do quarto.
No meio da madrugada, a lembrança dele chegava mansa, se deitando ao lado, ajeitando lugar no travesseiro, sopro quente no cangote da saudade.
Então, pouco a pouco, o corpo cansado se rendia, e o adormecer era quase um milagre: como quem, enfim, encontra sombra debaixo de árvore antiga, depois de muito caminhar na aridez.

 

C.L.

Tua ausência existe. Presente em cada instante em que me descubro feliz — e, de repente, falta algo. O teu sorriso interrompe o tempo. O olhar, lembrado, me percorre como se ainda fosse agora. Eu tento esquecer, mas há o corpo querendo o teu calor — um gesto que nunca termina. Adormeço dentro da falta, suave e inteira.

Quando sou feliz, é aí que mais percebo tua ausência: ela entra com o teu sorriso lembrado, com o teu olhar ainda em mim.
Nada toca esse centro vazio que insiste em querer o teu calor ao redor do meu corpo.
Adormeço como quem abraça o que falta — e, estranhamente, descanso nisso.

  • Microconto

Às vezes a alegria dói.
Ela percebeu isso num instante qualquer — gente conversando, copos tilintando, uma música que não pedia nada além de um leve balanço do corpo.
De repente, no meio do riso, algo se abriu dentro dela: um espaço vazio, enorme, silencioso.
Era a ausência dele. Presente.

Lembrou-se do sorriso dele: não era só um sorriso, era uma pergunta.
Um espanto suave, como se ele nunca acreditasse completamente na própria felicidade.
E o olhar — aquele olhar — que parecia beber o mundo e ficar tonto.
Com essa lembrança, ela sentiu que o real se deslocava um pouco para o lado, como um quadro torto na parede.
Nada mais estava exatamente no lugar.

Ela queria o calor dele.
Não era metafórico: era a pele, a temperatura exata, o contorno do corpo ocupando o ar ao redor.
O desejo não era grandioso, era insistente, repetitivo, quase doméstico: a vontade de um abraço que envolve e fecha o zíper do mundo.
Sabia que não teria. Ainda assim, o corpo pedia, como quem pede água sem saber a palavra “sede”.

Quando voltou para casa, havia um silêncio espesso na sala.
Sentou-se na cama, sem acender a luz, como se a escuridão fosse uma forma de sinceridade.
Deitou-se devagar, tentando não fazer barulho, como se pudesse acordar a falta que dormia ao lado.
Pensou nele, mas não era exatamente pensamento: era uma presença imaginária percorrendo o contorno do seu corpo.
O sono não chegava; chegava apenas um cansaço fundo, uma trégua pequena.

Adormeceu por fim — não dentro da paz, mas dentro da ausência dele.
E descobriu que também se pode descansar aí: no lugar em que o que falta acaba sendo, estranhamente, tudo o que se tem.